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Enquanto torcedores desviam de bombas e assaltos, o Ministério Público se articula para conter a violência que ameaça esvaziar os estádios do Rio. A ofensiva se divide em mais de uma frente e busca, ao mesmo tempo, combater a corrupção. Luta que nasceu de uma súplica.

— Recebemos da PM um pedido de socorro. Porque a atuação na repressão às organizadas estava sendo ridicularizada — conta Rodrigo Terra, da 4ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa do Consumidor.

O promotor tenta envolver todos os órgãos no planejamento da segurança. A batalha começou quando o torcedor do Botafogo Diego dos Santos morreu, em fevereiro, próximo ao Nilton Santos, perfurado por um espeto de churrasco. O MP entrou com pedido de torcida única em clássicos. Após forte resistência, a medida virou um Termo de Ajustamento de Conduta que obriga as tabelas das competições a serem aprovadas previamente pela PM. Fla, Flu e Bota são a favor. O Vasco, contra. CBF e Ferj ainda não responderam. Se não consentirem, o juiz Guilherme Schilling, do Juizado Especial do Torcedor, decidirá.

A resistência não vem apenas dos clubes. A ação caiu após o desembargador Gilberto Clóvis conceder efeito suspensivo. Foi ele também que vetou a interdição de São Januário e a liminar que obrigava a instalação de leitores biométricos nos estádios.

A tecnologia, que permite identificar torcedores com ficha criminal, já é usada fora do Estado, como na Arena da Baixada, do Atlético-PR. Lá, não há registro de incidentes desde setembro. No Rio, a ação está parada na Justiça.

— Não conseguimos citar o Maracanã como réu porque não localizamos a concessionária. O mandado já foi para três endereços — revela Terra.

Limpidus: em busca da asfixia financeira das organizadas

O promotor Marcos Kac, do Grupo de Atuação Especializada no Desporto e Defesa do Torcedor (Gaedest) do MP, também enxerga na biometria uma das soluções. Mas ele luta contra a violência por outros meios. É um dos responsáveis pela Operação Limpidus, que sacudiu o futebol carioca este mês ao conduzir coercitivamente dirigentes e prender torcedores e funcionários de clubes. O alvo é a cessão de ingressos às organizadas, que lucram ao repassá-los a cambistas.

— Buscamos romper essa prática espúria da cessão gratuita de ingressos. Ou seja: asfixiar economicamente as grandes organizadas, que se tornaram um antro de marginais que respiram o clube 24h por dia. Um deles tinha três carros na garagem, mas não tem atividade profissional. Isso é incompatível — desabafa. — O MP pretende, ao asfixiar as organizadas, controlar a violência que permeia os estádios.

Criado em outubro, o Gaedest está só no começo de sua batalha pelo que Kac chama de moralização do esporte. Segundo o promotor, a Limpidus terá novas fases, nas quais os dirigentes do alto escalão dos quatro grandes clubes — poupados até aqui — poderão ser denunciados. Outras operações também vem por aí. E podem voltar sua mira para além dos clubes e, até mesmo, para além do futebol.

— Não se pode perder de vista que existem denúncias contra vários presidentes de federações e confederações esportivas por corrupção. Acredito que o momento de passar a limpo o desporto e de conseguir melhorar a prática esportiva é esse.