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Foram quase 18 anos de apito e outras temporadas ainda poderiam vir, mas ele preferiu abrir espaço para a turma mais jovem e assumir o lado da gestão da arbitragem. Charles Hebert Cavalcante Ferreira, um dos grandes nomes da arbitragem alagoana, com grandes experiências no futebol nacional, decidiu assumir a Comissão de Árbitro da Federação Alagoana de Futebol (CA-FAF) e neste final de ano, avalia a temporada, além de fazer um prognóstico do próximo ano.

Confira a entrevista do profissional ao MinutoEsportes:

 

Como foi a sua saída da arbitragem para o cargo de Presidente da Comissão?

CH – Estava há quase 18 anos na arbitragem, 10 deles dedicado ao quadro da CBF, observei que o novo momento que passa a arbitragem mundial exige muita dedicação, preparação e abdicação dos árbitros para se manterem em alto nível. E vi que os meus outros afazeres pessoais, de uma forma ou de outra me impossibilitavam de continuar me dedicando tanto. Sem contar que a CBF implantou uma nova metodologia de ranking e quadros este ano, e nele, eu fui inserido apenas no quadros C e D, ou seja, depois de anos apitando jogos da série B e alguns jogos da série A, ficaria limitado apenas a apitar jogos das categorias mais abaixo, sendo uma espécie de rebaixamento na carreira. Não somente o Charles, mais vários outros árbitros do país se encontraram nesta condição. E enquanto isso acontecia, recebi o convite do Presidente da Federação para assumir o comando da arbitragem alagoana. Pensei alguns dias, me reuni com a minha família, foi uma decisão difícil, mas decidi aceitar o desafio, formando uma nova equipe para administrar a arbitragem de Alagoas. E sai de cabeça erguida, sem mágoas, com a consciência do dever cumprido, passando em todos os testes físicos e teóricos, apitado tudo que gostaria de apitado, todas as séries A, B, C e D, Copa do Brasil, Copa do Nordeste, inclusive a final em 2010, clássicos CSA x CRB, quase 150 jogos na série A do meu estado. Só poderia sair e agradecer a todos por tudo que vivenciei na arbitragem dentro dos gramados.

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Como foi formada sua nova equipe da Comissão de Árbitros?

CH – Não foi uma tarefa fácil, eu precisaria de pessoas que tivessem tempo, que fossem ex-árbitros, que entendessem a minha concepção de trabalho, e que estivessem dispostos a nova missão de reestruturar a arbitragem de Alagoas. Convidei o Ex-árbitro George Feitoza, que foi um grande profissional quando atuava e um grande formador de árbitros. O mesmo aceitou o cargo de Vice-Presidente da CA-FAF. E fiquei pensando quem seria a outra pessoa, e no meu pensamento, acharia interessante uma mulher, ao qual nunca existiu na Comissão de árbitros do nosso estado, e assim valorizaria a categoria feminina que cresce a cada ano dentro da arbitragem. E aí lembrei da Lydia Pollyana que se formou na minha turma, e que tem um grande perfil de gestora, não havia há quase cinco anos, marcamos uma conversa e ela aceitou, hoje atuando como Secretária Geral da CA-FAF dando total suporte a arbitragem feminina.

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Quais os problemas encontrados no início? E o que foi feito de imediato?

CH – Pegamos um quadro reduzido, com apenas 48 profissionais, onde nunca o quadro tinha ficado com tão poucos profissionais, desde o tempo que estou na Federação nunca vi número tão reduzido. Sem contar que quase 70% dos árbitros estavam desmotivados. Criamos o Plano de Quadros e Carreiras – PQC, hierarquizamos novamente o quadro com quatro níveis (CBF, FAF-1, FAF-2 e o FAF-3), onde encontramos apenas o quadro da CBF e o quadro Local, desestimulando e não motivando os árbitros a se esforçarem para subir degraus na carreira. Executamos também um aprimoramento continuado com o quadro local, com aulas práticas e teóricas, assim que assumimos vários árbitros e assistentes pediram para retornar à FAF, fizemos uma triagem, observamos os que se enquadravam na arbitragem moderna, e recebemos os mesmos, que fizeram o aprimoramento continuado e retornaram a atuar normalmente. Caso dos experientes Wladson Oliveira e Maria de Fátima que já fizeram parte do quadro da CBF, que integravam o grupo de sete profissionais que voltaram e podiam contribuir. Indicamos dois profissionais do quadro local para o Programa de Renovação da Arbitragem Brasileira da CBF - PRAB, onde só podia indicar quem fosse do quadro da CBF, mesmo assim solicitamos a Comissão Nacional, que nos autorizou a ida dos dois para um curso em São Paulo, que foram os jovens Helder Brasileiro e Ruan Barros, que vem se destacando nas últimas temporadas. Implantamos também o projeto de Tutoria de Arbitragem, ao qual a Comissão passou a acompanhar os árbitros nas categorias de base, com relatórios de acompanhamento e desempenho. Fizemos também um curso de noções básicas de arbitragem para os Delegados da Federação, estes que acompanham os árbitros nos jogos das categorias amadoras, podendo ajudá-los em caso de necessidade. Trouxemos a Ex-Assistente FIFA Ana Paula de Oliveira para uma palestra sobre as perspectivas para a arbitragem feminina, fomentando assim a valorização das árbitras no nosso estado. Criamos também a Corregedoria de Arbitragem, sendo indicado o Dr. Osvaldo Junior, que também é Secretário do TJD/AL para ser o corregedor, passando a receber e analisar todos os documentos dos árbitros, dando total transparência, não mais sendo esta função da CA-FAF em receber. Fizemos um trabalho de pesquisa no campo psicológico com a Psicóloga alagoana da CBF Dra. Maria Daniela, que traçou um perfil mental de todos os árbitros. Descentralizamos o trabalho de condicionamento físico com o Prof. Luigi Alpino, que passou a ter total autonomia tanto nos treinamentos, quantos nos testes físicos. Ou seja, criamos departamentos nas áreas psicológica e de preparação física autônomos. Uma equipe para trabalhar a arbitragem de forma multidisciplinar. Indicamos dois árbitros para o quadro da CBF, o Rafael Carlos que entrou na minha vaga mesmo fora do prazo de indicação, e a assistente Ana Paula, que tinha sido indicada pela comissão anterior, mas o processo estava parado, colocamos ele para andar, e a mesma entrou no quadro junto com o Rafael. Essas foram algumas medidas que tomamos inicialmente nos primeiros meses.

Quais a novidades da arbitragem alagoana para 2018?

 

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CH – Em 2018 teremos várias novidades. Iniciaremos com a nossa Pré-temporada em janeiro com a presença do Instrutor FIFA Sérgio Cristiano do Rio de Janeiro, e nela trabalharemos tópicos não somente ligados a parte técnica da arbitragem, como também outros temas que poderão contribuir muito com a formação dos profissionais, é o caso da participação do técnico paraolímpico campeão mundial, o alagoano Diego Calado. Iremos criar o quadro de analistas de arbitragem estadual, estes que irão desempenhar a função com a nova ferramenta de avaliação digital IAFUT adquirida pela FAF, onde apenas a Federação de Santa Catarina utiliza, um programa moderno de aplicativo de celular que avalia o árbitro em tempo real, repassando os dados para o site, e as suas notas sendo dadas pelo próprio sistema, tornando a avaliação dos profissionais totalmente isenta e transparente. Fechamos parceria junto com o Sindicato dos Árbitros com material esportivo, que irá vestir com três camisas diferentes todos os profissionais, onde neste ano os mesmos passaram a temporada toda apitando com somente uma cor de camisa. Quase tudo certo também para utilizarem rádios comunicadores iguais os do campeonato brasileiro, uma parceria com a CBF.

Retornamos o sistema de designação de árbitros por sorteio, dando maior credibilidade e transparência, acompanhando o formato que a CBF sempre executou. Podemos ter também o intercâmbio de árbitros com estados vizinhos. E por fim, se os clubes solicitarem árbitros de fora, os mesmos só poderão ser da FIFA, sendo o quarteto todo, não mais apenas os árbitros e os assistentes sendo da casa, o que criava conflitos dentro do grupo, se é para pedir, peçam todos.

Outra novidade foi a criação da Ouvidoria Independente, agora quando os clubes reclamarem formalmente, estas serão analisadas por comissões de arbitragens vizinhas, e serão prontamente enviada a eles e as providências tomadas. Ou seja, a comissão de alagoas não avaliará os erros dos seus próprios comandados, dando maior transparência e credibilidade.

Já foi divulgada a relação dos participantes do Alagoano 2018. Quais os critérios? Quem fica de fora reclama muito?

CH - O critério principal é o momento que vive o árbitro dentro dos quatro pilares (Físico, Técnico, Psicológico e Social), que ele esteja atuando nos últimos meses e que cumpra com as atividades anteriores, entrega das documentações e exames que lhe são solicitados, e após conferência pela Corregedoria de Arbitragem da FAF os mesmos estejam aptos a participarem.

Não trataremos mais árbitros como familiares, e sim como profissionais. Não iremos mais personalizar ninguém, nem manter cadeira cativa, nem vagas eternas no quadro da FAF e da CBF, só vai ficar agora quem corresponder em tudo. Neste sentido a própria CBF alterou o nome de Relação para Seleção, ou seja as seleções passam a ser anuais.

Nos meus 18 anos de arbitragem vi pouca gente reclamar, já vi vários árbitros e assistentes deixando o quadro da FAF ou da CBF, que as vezes até correspondiam os critérios, mas não a metodologia de quem comandava ou até mesmo da arbitragem moderna. Os árbitros por si só são seres disciplinados, carregam liturgia e discrição durante a carreira, a maioria sabe entrar e sabe sair. Cito o meu exemplo, desde 2009 apitava jogos da séries A e B, quando veio este ano a CBF remodelou os quadros de arbitragem, e dividiu os que apitariam A e B, e os que apenas apitariam as séries C e D, e para minha surpresa meu nome veio neste quadro. Ano passado apitei VASCO x PAYSANDU em São Januário, e este ano não apitaria mais. Sabe quais foram os critérios? Nova metodologia de trabalho da nova comissão que assumiu. Sabe o que fiz? Não fui chorar, não fui reclamar, nada, simplesmente encerrei a carreira, e assim segue o jogo, a vida é isso. Não fiquei com raiva de ninguém, e recebi o convite para vim ajudar a arbitragem do lado de fora.

Vi vários grandes árbitros aqui de Alagoas deixarem o quadro também, cito casos como George Feitoza, Silvio Acioli, Adeilton da Hora, Josevaldo Bissaria, Maria de Fátima que retornou recentemente entre outros, e não vi ninguém destes lamentar por terem ficado de fora. Agora iremos tratar com normalidade entrada e saídas. Igualmente um jogador que é contratado por um clube, e de repente não atende mais o Treinador, e é encerrado seu contrato. Como disse acima, vamos tratar a arbitragem com profissionalismo. A FAF e a CBF são empresas privadas e os árbitros prestadores de serviços.

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Existe algum tipo de “Racha” de grupos dentro da arbitragem alagoana?

CH - Já escutei muito isso também, mas internamente sabemos que nunca existiu, acho que isso era citado, pois como fui presidente do Sindicato por quase 7 anos, e neste tempo existiu alguns conflitos institucionais com a antiga CEAF, debates em prol dos árbitros, nada pessoal ou individual, aí externamente essa conversa se propagava neste sentido. Depois que deixei o Sindicato, voltei a ser apenas árbitro novamente, deixando para o atuais presidentes as lutas em prol da classe.

Agora como todo ambiente de trabalho, seja no meio privado, público, político e cia, existe algumas pessoas que agem sem representatividade, apenas pensando no individual, muitas vezes beneficiadas por A ou por B. Mas estas são poucas, as vezes se reúnem em pequenos grupos de 3 a 5 pessoas. Mas logo quando assumimos, avisamos que não trabalharíamos com grupinhos ou subgrupos, iríamos trabalhar em prol dos quase 50 árbitros sem distinção, e aqueles que não se adequassem, a caminhada agora seria diferente, valorizaríamos os 45 em detrimento aos 5 que não se adequassem. E fizemos o que dissemos, no Campeonato Alagoano da segunda divisão este ano escalamos 22 árbitros centrais, ano passado apenas 10 foram escalados. Ou seja, o bolo foi repartido para todo mundo, descentralizando a arbitragem alagoana. O recado foi dado, e no final do ano fizemos uma pesquisa secreta de satisfação com o grupo, e tivemos 93% de aprovação, acho que estamos no caminho certo.

 

Aquele episódio envolvendo a arbitragem em Coruripe no SUB-20 com o árbitro Júlio César foi superado?

CH - Com certeza, tocamos a arbitragem alagoana tranquilamente, não podemos ficar reféns de A ou de B, o grupo é pequeno mais tem muita qualidade. Ficamos sem vários árbitros por outros motivos, e a arbitragem seguiu, ninguém é insubstituível. Assistentes como Brígida Cirilo (Gravidez), Maxuell Rocha (Lesão), Douglas Lino (Cirurgia) todos eles experientes e destacados na arbitragem e alguns outros quase não participaram do primeiro semestre, onde fizemos quase duzentos jogos, amadores e a da segunda divisão, e a arbitragem caminhou normalmente.

Já o árbitro Júlio César ficou sem atuar desde o episódio, a CBF não o escalou mais, perdeu quase 6 meses de atividades, foi punido pelo TJD/AL por 30 dias mais multa, também não atuando por aqui, o que fez com que não fosse relacionado tanto para o alagoano, quanto para SENAF 2018.

Neste tempo, preparamos outros jovens valores que poderão corresponder às expectativas no alagoano 2018.

Por falar em jovens valores, como anda a formação dos novos árbitros em Alagoas?

CH - Este ano tivemos uma turma formada com 24 árbitros, uma parceria entre a FAF e a FACOL, faculdade pernambucana, tive a oportunidade de participar da aula inaugural e depois da formatura, o curso foi todo coordenado pela comissão anterior, observamos que a metodologia acadêmica tem um formato bastante positivo, aliando a arbitragem com os estudos acadêmicos. Porém, na próxima turma iremos corrigir algumas falhas de concepção. A média de idade da turma foi elevadíssima, quase 31 anos, em outros estados só podem fazer o curso até 30 anos, aqui vários se formaram com 35 anos, uma idade muita elevada para início de carreira. Para entrar na CBF hoje, só pode ser indicado até 35 anos, então como vou formar um aluno com 35? Ele já entra sem expectativas de ascensão na carreira, e isso não é bom.

Vale ressaltar também, que a próxima escola não irá mais formar para selecionar, já sentamos com o Presidente da FAF e mostramos nosso projeto sobre isso. Iremos fazer que nem os jogadores, os famosos “Peneirões”, e isso já vem acontecendo, criamos o projeto APITO NO INTERIOR junto com o Governo do Estado, um curso de noções básicas de arbitragem, que neles observaremos jovens valores, que poderão ser indicados para fazer o Curso Profissional de Árbitro da Futebol na FAF. Ou seja, agora iremos selecionar, para depois formar. Pois, há uma evasão muito grande de árbitros das turmas que se formar, geralmente se formam 25 apenas 3 ou 4 continuam na carreira. Vamos virar essa página, fazendo com que os cursos tenham como prioridade principal a formação de árbitros com talento. Iremos valorizar a arbitragem feminina, poderemos retornar com cursos específicos somente para mulheres. E também temos a ideia de dividir as funções, fazendo cursos definidos por função. Este ano chegamos na FAF tinham mais árbitros do que assistentes. Poderemos lançar edital apenas para o curso de formação de árbitros assistentes. E também analisamos a possibilidade, de nem todos os árbitros que se formarem, obrigatoriamente terem que entrar no quadro da FAF, iremos fazer um estudo, e apenas quando houver vagas, poderão ser chamados, igualmente os concursos públicos. Pois em 2018 estaremos com quase 80 árbitros, número ideal para trabalharmos todas as competições, muitos deles precisando ser oportunizados e trabalhados. Não adianta todo ano formar 20 – 25 e não ter campo de trabalho para os mesmos. Com isso, já solicitamos ao Presidente da FAF a realização do próximo curso profissional apenas em 2019. Em 2018 teremos seis edições do Projeto APITO NO INTERIOR. Mas uma vez volto a repetir, a arbitragem tem que passar a ser profissional e moderna.