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A grama natural do Everest, tradicional clube do bairro de Inhaúma, na Zona Norte do Rio de Janeiro, é palco de pequenas histórias de grandes nomes do futebol carioca. Mas somente uma movimentação política bem-sucedida poderá agora permitir que aquele verde receba novos personagens no futuro.

O prefeito Marcelo Crivella (PRB) está disposto a acabar com o campo, considerado raridade no subúrbio devido às suas características, para atender a 400 moradores em situação de risco de desabamento no Parque Everest, uma comunidade vizinha. A ideia é erguer 500 prédios do programa “Minha Casa Minha Vida”. 

A decisão foi anunciada em março deste ano, após as fortes chuvas que derrubaram o alambrado do estádio. A situação é frequente, pois o Rio Faria Timbó alaga e causa transtornos para os moradores do bairro vizinho ao Complexo do Alemão, uma das áreas mais carentes da capital fluminense.

O problema é que a iniciativa do político esbarra na Lei 3372/02, de autoria do Deputado Federal Otavio Leite (PSDB), que declarou o Everest como área "Non Aedificandi", ao lado de outros 34 espaços. Ela foi sancionada com o intuito de preservar campos com medidas oficiais da fúria da especulação imobiliária. 

Agora, Crivella quer revogar o tombamento do Everest, uma vez que a prefeitura diz ser a dona do espaço.

– O prefeito colocou o clube contra a comunidade. Ele falou que vai dar casa e trabalho, então o pessoal vai querer morar aqui. Mas ele não sabe a importância que esse campo tem. Muitas pessoas que estavam indo para outra vida, das drogas e do crime, vieram disputar campeonatos no Everest e mudaram de vida – argumentou o vice-presidente de Esportes do clube, Edison Mendes, em entrevista ao LANCE! na sede do clube.

A prefeitura enviou no dia 12 de março um ofício ao clube exigindo que o local seja desocupado em 30 dias. O prazo termina nesta quarta-feira. Com medo que a decisão sobre o Everest abra precedentes para outras derrubadas, os clubes pequenos do Rio marcaram para esta quinta-feira uma audiência na Câmara de Vereadores para tentar convencer Crivella a voltar atrás e evitar a frustração de muita gente.

Por lá, já passaram nomes como Vitinho, ex-Botafogo e hoje no CSKA (RUS), e os ex-jogadores Marco Aurélio e Mário Marques. E foi contra o Everest que Zico marcou seu primeiro gol, ainda na escolinha do Flamengo. Hoje, o local recebe jogos da Liga de Futebol das Atléticas Universitárias (LFAU) nos finais de semana. Nos outros dias, o gramado é preservado.

O clube, que completa 65 anos no dia 28 deste mês, teve seu auge em 1999, quando sagrou-se vice-campeão da Terceira Divisão do Carioca, sob o comando de Mário Marques. Atualmente, ele conta com 150 associados, que pagam uma mensalidade de R$ 25 para ajudar a custear as despesas básicas. O terreno tem cerca de 15 mil m². 

Especialistas acreditam que a construção de prédios no terreno causaria prejuízos financeiros ao município, devido aos gastos com estruturas de drenagem, uma vez que o problema dos alagamentos está longe de ser solucionado. O dia a dia do Everest é prova disso.

– Depois da chuva do mês passado, tivemos de retirar 20 caminhões de lixo daqui de dentro. Gastamos R$ 5 mil só para limpar o campo – contou o presidente do Everest, Marco Vieira Mendes.

Prefeitura defende que ocupação é irregular 

A justificativa da prefeitura para levar adiante a ideia de derrubar o campo do Everest é que o terreno foi ocupado de maneira irregular. O argumento consta na notificação enviada ao clube no dia 12 de março deste ano, à qual o LANCE! teve acesso. O Everest foi fundado em 1953. Funcionários e dirigentes dizem que nenhuma administração anterior à de Crivella contestou o uso do espaço. 

O texto informa também que o ocupante “é devedor das cobranças relativas à Remuneração Provisória”. O Everest admite que não tem documentos para comprovar a propriedade e se apega à Lei do deputado Otavio Leite como sua maior proteção para não perder a disputa. Mas afirma não haver dívida com o município.

“O campo é uma área pública ocupada de maneira irregular. Há hoje na comunidade 400 famílias vivendo em casas com situação de risco de desabamento, vizinhas a ele. A prefeitura recebeu solicitação destes moradores para que não sejam removidos para longe de sua atual moradia. Estudos estão sendo realizados sobre o projeto de construção das casas no terreno. O campo, usado com mais frequência nos finais de semana, poderá ser mais facilmente realocado do que as 400 famílias em risco. O Tribunal de Contas do Município (TCM) também solicitou a retomada da área”, informou a prefeitura, por nota.

Com a Palavra
Otavio Leite 

Deputado Federal e autor da Lei 3372/02

"Há terrenos em melhores condições" 

Nós queremos sensibilizar o prefeito para que seja encontrada uma solução habitacional alternativa. O que é absolutamente viável, afinal não faltam na região terrenos abandonados, propriedades que se prestariam a isso em melhor condições técnicas a construção de um conjunto habitacional.

Alem disso, não faz o menor sentido sepultar uma historia de mais de cinquenta anos de um espaço de um clube por onde passaram muitos atletas, alguns craques e milhares de esportistas.

Existe uma lei. O objetivo do prefeito é revogar o tombamento do Everest. Para prosperar, há dois inconvenientes. Ele teria que destombar, aprovando uma lei na Câmara. Segundo, o próprio campo é área vulnerável a chuvas. Qualquer construção ali também será profundamente afetada.

Quando chove, afeta casas laterais e o campo. Qualquer construção lá vai causar um custo absurdo de aterros e estruturas de drenagem. É um contrassenso.