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O último mês foi de preocupação no bairro de Inhaúma, Zona Norte do Rio de Janeiro. O projeto do prefeito Marcello Crivella (PRB-RJ) de demolir o campo do Everest para construção de 500 apartamentos do programa “Minha Casa Minha Vida”, fez com que ex-jogadores e torcedores se unissem. Apoiado por nomes como Zico e Amoroso, a campanha '#FicaEverest' tem atraído adeptos na defesa do clube.

Por meio de vídeos, atletas que têm ligação com o campo gravaram mensagens defendendo sua permanência e se opondo à demolição imposta pela prefeitura do Rio de Janeiro. Caso de Zico, por exemplo, que lembrou de seu primeiro gol marcado pela escolhida do Flamengo - exatamente no campo de Inhaúma:

– Eu apoio a causa do Everest. Fica, Everest! Tem uma marca na minha vida. Primeiro time que enfrentei pelo Flamengo foi ele, nunca será esquecido. Meus irmãos jogaram lá. É um local gostoso, a prática do futebol é sadia para a região. Esporte e entretenimento, temos poucos lugares assim no Rio de Janeiro. Foi bom para diversas gerações e pode ser bom para as futuras – gravou o ex-jogador.

Outro nome forte na campanha é o de Amoroso, que fez história no São Paulo e teve passagens marcantes por Flamengo e Corinthians. O ex-atacante citou alguns craques do passado que atuaram no campo, lembrou de suas participações em amistosos de fim do ano e também entrou na campanha pela permanência do terreno sob posse do clube. 

Uma audiência pública na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro está marcado para esta quinta-feira, às 9h30. O objetivo é tentar salvar o campo do Everest, que conta com a defesa do vereador Felipe Michel (PSDB) e do deputado federal Otávio Leite (PSDB). A ideia é barrar o plano do prefeito Marcelo Crivella (PRB) de destombar o terreno do clube. 

– Eu apoio essa causa, esse clube, esse campo, esse estádio, onde grandes craques do passado tiveram a honra de desfilar seu futebol. Isso fez com que o clube ficasse conhecido pelas peladas de final de ano, pelo entretenimento com os amigos de vários bairros do Rio. Eu sou um desses jogadores que teve oportunidade de crescer jogando no Everest. Espero que o clube possa permanecer onde sempre esteve – disse Amoroso. 

O LANCE! conversou com Marco Vieira Mendes, presidente do Everest, que lembrou de outros atletas que passaram recentemente pelo clube. O mandatário buscou fotos de Vitinho, atacante ex-Botafogo e atualmente no CSKA, da Rússia, que deu seus primeiros chutes na bola no campo do Everest. É o caso mais recente de sucesso.

Outros nomes citados pelo presidente foram o do lateral-esquerdo Egídio, do Cruzeiro, e do ex-atacante e atualmente técnico Deivid, ex-Flamengo. Presença frequente em festas de fim de ano no Everest, o atacante Negueba conversou com a reportagem e lembrou do valor social do campo para a comunidade: 

– Na minha opinião, não tem que demolir. Não só eu mas outros jogadores já jogaram nesse campo, ajuda a crianças a saírem da rua. Tem que ficar. Assim como Vitinho, Egídio... O campo tem que permanecer para que possa sair outros jogadores da comunidade. É uma ajuda para a comunidade e uma forma de tirar as crianças da rua – disse o atacante ex-Flamengo. 

Voltando mais no tempo, é possível citar Mário Marques e Afonsinho, com passagem marcante pelo Botafogo. Atualmente treinador, Deivid chegou a treinar no clube antes de ir para o Flamengo.

Nascido, criado e morador do clube: a história de Vadinho:

Um dos nomes mais ativos na defesa do Everest é Vadinho, ex-atacante que mora no próprio clube de Inhaúma. Ele vestiu as cores do time nos anos de 1974 e 1975 e disputou quatro vezes a primeira divisão do Carioca.

– Everest é minha casa, minha família. No início, eu não queria jogar no Everest, queria jogar no Inhaumense. Lá, já jogava no primeiro time e aqui teria que vir para o juvenil. Não era interessante para mim. O que propuseram? "Vem para cá que te colocamos no profissional". Fiz quatro partidas e fui chamado. Fui bicampeão – recorda o ex-jogador, de 62 anos.

Vadinho foi um dos responsáveis por colocar em prática um projeto social com escolas no Everest no passado, ideia que os dirigentes do clube sonham em retomar, mas esbarram na questão financeira. No momento, a prioridade é evitar o fim do campo.

– Muitos outros saíram daqui. Vitinho saiu daqui ontem. Luciano Naninho saiu daqui para o Madureira. Se for falar a quantidade...

Entenda o caso

O prefeito Marcelo Crivella está disposto a acabar com o campo do Everest para atender a 400 moradores em situação de risco de desabamento no Parque Everest, uma comunidade vizinha. A ideia é erguer 500 apartamentos do programa “Minha Casa Minha Vida”. 

A decisão foi anunciada em março deste ano, após as fortes chuvas que derrubaram o alambrado do estádio. A situação é frequente, pois o Rio Faria Timbó alaga e causa transtornos para os moradores do bairro, vizinho ao Complexo do Alemão. 

O problema é que a iniciativa do político esbarra na Lei 3372/02, de autoria do Deputado Federal Otavio Leite (PSDB), que declarou o Everest como área Non Aedificandi. Ela foi sancionada com o intuito de preservar os campos com medidas oficiais da fúria da especulação imobiliária. 

A prefeitura enviou no dia 12 de março ofício ao clube exigindo que o local seja desocupado em 30 dias. Com medo que a decisão sobre o Everest abra precedentes para outras derrubadas, os clubes pequenos do Rio marcaram para amanhã uma audiência na Câmara de Vereadores para tentar convencer Crivella a voltar atrás e evitar a frustração de muita gente.

A justificativa da prefeitura para levar adiante a ideia de derrubar o campo do Everest é que o terreno foi ocupado de maneira irregular. O argumento consta na notificação enviada ao clube no dia 12 de março deste ano, à qual o LANCE! teve acesso.