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O collant cheio de brilho, o cabelo preso por um rabo de cavalo e a esperança de uma nova estrela do esporte nacional. Nas arquibancadas, olhares fixos na execução de cada acrobacia feita no tablado. O pódio era o topo, o ouro estava quase no pescoço, mas escapou em uma falha nas barras assimétricas. Só restou o choro. Há 10 anos, Jade Barbosa despontou nos Jogos Pan-Americanos do Rio e era considerada a principal promessa da ginástica artística do Brasil. Mas parou na expectativa.

— O atleta que perde tempo com isso deixa de produzir. Chateia, quem não fica magoada com essas coisas? Às vezes, você passa a não acreditar em você mesmo. Mas só vai mudar treinando — diz a ginasta, que terminou em quarto lugar na prova do individual geral.

— O que as pessoas acham não importa. A medalha só vai para uma pessoa: você. Quem veste o collant na competição é só você.

Jade era apenas uma adolescente em busca de sonhos. Duas semanas antes de competir na final do individual, a carioca completou 16 anos e nem imaginava o que o Pan lhe reservava: sucesso com o público e a fama de ser a brasileira mais chorona. Nem mesmo esses dez anos apagaram esse plus no currículo da jovem ginasta do Flamengo.

A insistência no assunto até hoje visivelmente a incomoda. Ser emotiva não é um problema para Jade. Mas a atleta demonstra ressentimento pelo fato de as pessoas terem usado a morte da sua mãe para atiçar suas emoções.

— Sempre abusaram da ideia de que eu tinha perdido a minha mãe. Fiquei com essa fama, mas isso nunca me preocupou, acho que cada pessoa tem um jeito de se expressar — rebate Jade, para logo cutucar os críticos:

— As pessoas acham que chorar é um sinal de fraqueza, mas não é. A pessoa que se expõe é muito mais verdadeira e sempre funcionei dessa forma.

Série de lesões

A medalha de ouro conquistada no salto — ela ainda somou uma prata por equipes e um bronze no solo —, é guardada com todo o carinho. Não está amassada e nem perdida junto com as demais coisas que tem em casa. Foi colocada junto com a medalha de bronze no individual geral conquistada no Mundial de Stuttgart, na Alemanha, menos de dois meses após ela ficar em quarto no Pan-2007.

— Está muito bem guardada. Todas estão intactas e tenho muito carinho por elas. medalhas não são apenas para o atleta que trabalha muito, é para quem a merece — diz.

Com duas Olimpíadas no currículo — 2008 e 2016 —, Jade nunca conquistou uma medalha.

— Se não ganhei, não era para ter acontecido ainda. Tenho duas medalhas em Mundiais, o que já é incrível. Fiz o meu máximo e não aconteceu, mas tudo bem. Não me incomoda.

Os últimos dez anos da carreira de Jade foram marcados por altos e baixos. Foram quatro graves lesões, uma delas no punho direito que era considerada irreversível. Aconteceu após os Jogos Olímpicos de Pequim-2008. Os médicos desencorajaram a atleta a voltar a competir. Ela não desistiu. O sonho de chegar no topo sempre falou mais alto.

— Realmente achei que não conseguiria. Me adaptei à lesão, tirei vários elementos difíceis para continuar. Perdi força e flexibilidade. Faço fisioterapia até hoje. Tive lesões difíceis e em momentos complicados. Mas me superei.

Atleta celebridade

A timidez inicial no Pan-2007 ficou para trás. Mais experiente, calejada da vida, Jade tira de letra questões embaraçosas e até a vida de atleta celebridade, que conquistou nos últimos anos. Se há dez anos eram as comunidades no Orkut aproximavam a ginasta dos fãs, agora ela é um furor nas redes sociais, principalmente no Instagram, onde acumula quase 850 mil seguidores.

Selfies nos treinos, na praia, na balada. A jovem até participou de uma competição de dança na TV. Chegou à final, mas não conquistou o troféu. Jade se iguala no patamar de grandes estrelas midiáticas do Brasil, como Neymar, Gabriel Medina e Arthur Nory.

— Muitos atletas têm problemas com isso. Se não consegue lidar, nem é melhor acompanhar. Mas as redes sociais são muito positivas. Só não dá para agradar todo mundo. Adoro estar perto dos meus fãs — diz.