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Sentado na ponta da mesa de reuniões do Conselho Diretor do Fla, Ricardo Lomba conhece aos poucos a nova função em sua vida. De Márcio Braga, ouviu: o assento agora ocupado pelo auditor da Receita Federal de 49 anos é uma cadeira elétrica. Ao GloboEsporte.com, na última sexta-feira - complementada com uma pergunta nessa segunda -, Lomba defendeu o grupo do Flamengo, mas, apesar de toda a cautela, não escondeu problemas.

Afastado do Twitter e correndo de grupos de Whatsapp, o novo homem-forte do futebol do Fla garante autonomia no cargo, mas, ao mesmo tempo, fala na condicional das decisões da pasta. A vontade é de ajudar o Flamengo e levar um pouco do sentimento da arquibancada para dentro do campo. Mas não que ele ache que esteja faltando. A análise vem acompanhada de uma promessa.

Antes da final da Copa do Brasil, o presidente disse que que ter um vice de futebol “fazia pouca diferença” no momento. Dez dias depois, você foi nomeado vice de futebol. O que mudou? Pareceu uma satisfação, uma pressão política.

Definitivamente não foi isso (pressão política). Eu acho que para ser presidente e vice de futebol do Flamengo, guardando uma sanidade mental, tem que ser muito bem preparado. Tem que ser muito forte. É muita pressão. A pasta Flamengo é muito grande. Não houve nenhum tipo de pressão. Desde que assumiu a vice-presidência de futebol, o Bandeira vem procurando alguém para essa pasta. Algumas pessoas que se enquadravam foram convidadas e por questões profissionais não puderam assumir. Aconteceu comigo também.

Chegou a ser convidado antes?

A gente chegou a conversar… Mas, realmente, nunca me vi como vice de futebol do Flamengo. É aquela história: ''Flamengo não convida, convoca.” Você vai incorporando aquilo. Sente que o clube está precisando. Precisava de algum tipo de guinada no futebol. Quando ele fez o convite novamente, pensei ''é a hora'' e resolvi aceitar.

Você tem ido ao Ninho? Como tem sido esses primeiros dias?

Muitos colegas de arquibancada falam: 'Agora que você assumiu, tem que fazer isso aquilo, muda isso, aquilo''. Estou há 22 anos na Receita Federal, em cargos de chefia, e nunca tive essa característica de chegar e mudar tudo. Acho que tem que chegar com calma, analisar, conversar com as pessoas. Na medida do possível, quando você vai conhecendo, até para ter legitimidade, faz as mudanças que pretende e que forem necessárias. Estou na fase de ouvir, aprendendo bastante.

Fiz várias reuniões com o Rodrigo (Caetano), com o presidente, com o Rueda. Viajei pela primeira vez com o elenco no jogo contra a Chapecoense, foi bem legal. Pretendo fazer mais vezes para aproximar. Até para os jogadores me conhecerem. Para termos um ambiente favorável, de confiança. Até porque confiança é um negócio que vai surgindo. Na medida que tivermos um diagnóstico completo e identificarmos alguma coisas que precisem ser modificadas, vamos propor. Mas com muito equilíbrio e muita calma. Não é literalmente jogar para a torcida.

Você teve um encontro com a FlaFut (grupo político da Gávea), que divulgou um diálogo com o presidente. Esses encontros serão frequentes ou você foi apaziguar o caso com o Bandeira?

Desde que seja num nível de conversa, não têm limitação alguma. Muito pelo contrário. Acho que há contribuições a serem dadas. Todos querem o bem para o Flamengo. Agora, lógico, aproveitei o ambiente da situação do Bandeira, para esclarecer o que aconteceu. O que a gente acrescenta com aquela situação? Quem ganhou? O presidente sai queimado, o grupo sai queimado por uma gravação clandestina, o Flamengo sai queimado…

(Nota da Redação: no texto, Bandeira diz que o ano está bom com o título do Carioca e garante o emprego de alguns profissionais citados).

Bandeira garantiu Vitor Hugo, preparador de goleiros, Fernando Gonçalves, coach do futebol, e outros até o fim do mandato. Você terá voz, autonomia para essas decisões?

Todo mundo me faz essa pergunta. O regime do clube é presidencialista. A palavra é do Bandeira, fui nomeado por ele. E, em qualquer momento que achar que não estou contribuindo, ele me tira sem problema nenhum. Mas quando você faz essa divisão das pastas, eu entendo que cada vice-presidente tem que ter a sua autonomia para trabalhar. Mas nunca esquecendo que você tem um chefe. Não posso, por mim, tomar decisão sem conversar com o Bandeira.

Temos uma relação excelente, conheço o presidente há muito tempo. Tenho certeza que ele, ao me convidar, jamais passaria pela cabeça algo como: ''Ocupa ali um pouquinho para colocar as costas no meu lugar, mas quem continua mandando sou eu''. Porque tenho certeza que ele sabe que eu jamais aceitaria isso. Se me colocou, confia em mim e credita em mim alguma possibilidade de ajudar o Flamengo de alguma forma. A autonomia que ele dá aos demais vice-presidentes, me dará também. Mas faço questão de envolvê-lo nas decisões pelo regime que temos no clube.

Você tem algum dirigente que admire? Algum estilo de gestão que pensa seguir?

Falando de Flamengo, os dois maiores presidentes são Márcio Braga e Eduardo Bandeira de Mello. E por razões óbvias. Márcio é o maior vencedor. Os títulos mais importantes foram na gestão dele. Figura emblemática e que tem que ser reverenciado. Bandeira pegou o clube numa situação precária. Agora, claro, no futebol... tivemos um 2013 até interessante, com o título da Copa do Brasil. Aí depois, em 2014, ganhou o Carioca... É lógico que, apesar da nota 10 avaliando todas as pastas, o futebol certamente não está com a nota 10.

Todos nós, torcedores do Flamengo, não estamos satisfeitos com isso. Até porque somos bastante exigentes. Queremos títulos, vitórias. Houve várias tentativas, contratações, investimentos. Estamos com um CT incrível. Ninguém está plenamente satisfeito. Mas acho que ainda temos uma perspectiva de ter um final feliz no dia 13 de dezembro.

Márcio recentemente falou que o Bandeira era meio pé-frio. Conversou com o Márcio? O que achou dessa opinião dele?

Conversei com Márcio e pretendo conversar com qualquer pessoa que pretende contribuir. Ele me desejou sorte. Falou que realmente eu estava sentando em uma cadeira elétrica. Essa história do Márcio chamar o Bandeira de pé-frio, acho que deve ser encarado como brincadeira. Agora, infelizmente, isso acabou gerando uma polêmica e deu uma arranhada no relacionamento. Gostaria muito de poder ser o condutor de uma reaproximação. Como falei, são os dois maiores dirigentes do Flamengo. Eles têm que estar juntos. São personalidades espetaculares.

Como analisa os investimentos deste ano? Há o caso emblemático do Conca.

Gostaria de ter mais informações para falar e falaria com muita tranquilidade. Tenho algumas perguntas que pretendo fazer, conversar com a turma, para formar o cenário e o juízo de valor melhor. Mas achei a contratação do Conca uma excelente jogada. Enquanto torcedor, achei excelente. O que fica questionável aí, é a entrada dele, efetivamente, contra a Ponte Preta, Fluminense, se ele estava realmente em plenas condições. Fica um ponto de interrogação. Seria covardia da minha parte falar nesse sentido agora.

Mas é, sem dúvida, um craque de bola. Não dá pra questionar. Para mim, foi uma tacada ótima. “Vamos fazer uma aposta. Ele vem, usa as excelentes instalações, temos profissionais para recuperá-lo.”