FMI volta a duvidar de recuperação dos mercados, que têm dia positivo

  • 21/04/2009 21:16
  • Negócios

A crise global vai gerar US$ 4,1 trilhões em perdas às entidades financeiras de Estados Unidos, Europa e Japão, o que abrirá um buraco que apenas os governos poderão tapar, como informou nesta terça-feira o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Com a divulgação de seu relatório semestral a respeito do sistema financeiro, o FMI jogou um balde de água fria sobre o tímido otimismo que pairava no mercado, depois que os grandes bancos americanos voltaram a registrar lucro.

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Em Wall Street, no entanto, a declaração do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, de que o governo dos EUA dispõe ainda de US$ 134,6 bilhões para estabilizar o sistema bancário animou os investidores. A Bolsa de NY encerrou em alta de 1,63%, aos 7.969,56 pontos no DJIA (Dow Jones Industrial Average), principal referência da Bolsa. As Bolsas europeias também tiveram um dia positivo. No Brasil, a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) não funcionou por conta do feriado de Tiradentes.

Geithner defendeu hoje no Congresso americano o programa de resgate bancário do governo do país mesmo diante da divulgação de um relatório que alerta para um possível desvio de fundos públicos.

"Temos os recursos para avançar na aplicação de todos os aspectos de nosso plano de estabilização financeira", escreveu Geithner na carta dirigida à comissão parlamentar responsável por controlar a atribuição dos US$ 700 bilhões, que o Congresso colocou à disposição do Tesouro em outubro do ano passado para salvar o sistema financeiro americano.

A previsão do FMI, por sua vez, é um horizonte de números vermelhos. De 2007 a 2010 bancos, seguradoras e fundos de pensões verão desaparecer US$ 4,1 trilhões de seus balanços devido à erosão do valor dos ativos nos principais países desenvolvidos, segundo os cálculos do organismo.

Até agora, o organismo financeiro tinha calculado apenas perdas potenciais por ativos americanos, que hoje previu que chegarão a US$ 2,7 trilhões, US$ 500 bilhões mais que o estimado em janeiro.

Segundo a entidade, a revisão responde à piora das perspectivas de crescimento em nível mundial.

Os bancos americanos reconheceram em seus balanços a metade da perda de valor dos ativos em seu poder, mas os europeus só admitiram aproximadamente 20%, ainda de acordo com o FMI.

As entidades do velho continente descontaram já o dinheiro perdido com as hipotecas de risco americanas, "mas esperam a deterioração dos empréstimos na Europa e de seus investimentos no Leste Europeu", advertiu em coletiva de imprensa Peter Dattels, um dos autores do estudo.

O documento afirma que apesar de terem sido registradas algumas melhoras nos mercados de crédito interbancário, o sistema financeiro mundial segue em "grave tensão".

Já não se trata apenas dos problemas envolvendo ativos hipotecários americanos, mas foi criado um círculo vicioso no qual a recessão piora os balanços dos bancos e estes, por sua vez, ao limitarem o crédito por perda de capital, agravam a recessão.

Empréstimos

Segundo o FMI, o volume total de empréstimos, que são a gordura que permite o movimento da maquinaria econômica, possa cair 4% em EUA e Europa, e demorará anos ainda para se recuperar.

Dentro desse contexto, José Viñals, novo diretor do departamento de Assuntos Monetários e Mercados de Capitais do FMI, pediu aos governos "ações decisivas" para preservar "os primeiros indícios de melhora" nos mercados.

As necessidades são grandiosas. Segundo cálculos do FMI, os bancos de EUA e Europa precisam de US$ 875 bilhões para voltar ao nível de endividamento de antes da crise.

Segundo o FMI, os governos deverão injetar capital nos bancos e, inclusive, nacionalizá-los, tendo em vista o pavor dos investidores.

"A transferência provisória da propriedade ao governo pode ser necessária, mas unicamente com a intenção de reestruturar a instituição e devolvê-la a mãos privadas o mais rápido possível", afirma o relatório.

Ao mesmo tempo, o FMI alertou sobre a aparição de um "protecionismo financeiro" prejudicial, que se manifesta na pressão das autoridades para que os bancos dirijam seus empréstimos ao mercado nacional e para que os consumidores mantenham a despesa dentro das fronteiras.

América Latina em vantagem

A crise financeira adquiriu uma nova frente com sua chegada súbita aos países em desenvolvimento, um fenômeno para o qual o FMI pediu "atenção urgente".

De acordo com o FMI, em vez de receber capital estrangeiro, os mercados emergentes exportarão dinheiro este ano, pela saída de bancos e investidores de seu território.

A debandada os coloca em uma posição delicada, pois em 2009 esses países precisarão de US$ 1,8 trilhão para refinanciar a dívida, majoritariamente em forma de bônus privados.

A região mais vulnerável é a Europa Oriental, onde grande parte da dívida corporativa está em moeda estrangeira, segundo Viñals.

Para Viñals, a América Latina está melhor preparada para suportar a tempestade ao desfrutar de um superávit por conta corrente e de um sistema financeiro mais robusto.