Pão de Açúcar: No Sertão é só bordado

  • Jorge Barbosa - Urupema
  • 20/07/2013 05:45
  • Cultura

A artista visual Maria Amélia Vieira se mostra animada com os primeiros resultados dos trabalhos que estão sendo realizados pelas bordadeiras das cooperativas dos povoados Ilha do Ferro, que fica em Pão de Açúcar (a 227 km de Maceió), e Entremontes, em Piranhas (a 282 km da capital), para o projeto “Tecendo a Manhã”, levado a cabo pelo museu Coleção Karandash de Arte Popular e Contemporânea. O evento, que acontece nesses dois municípios do sertão alagoano, com patrocínio da Caixa Econômica Federal e do Sebrae-AL, segue até o mês de agosto e inclui o lançamento de dois livros-bordados, editados por Maria Amélia, e uma exposição em Maceió em local a ser definido.

“Para esse trabalho, usei como tema o projeto ‘Tecendo a Manhã’, criando dois objetos, que são livros com fotografias que indicam amorosamente os povoados Ilha do Ferro e Entremontes. Esse obras definem bem o cotidiano das bordadeiras e a poética da arquitetura e paisagem ribeirinha”, explica a artista, que fez as fotos, juntamente com o parceiro de vida e de arte, o também artista visual Dalton Costa. “Em cada ‘página’ desse livro-objeto, há uma interferência do bordado de cada uma das bordadeiras. Esses livros irão compor a exposição ‘Tecendo a Manhã’ no próximo mês de agosto”, diz Amélia.

Os produtos – que receberam a prestimosa consultoria da artista, que nos últimos seis anos tornou-se parceira dessas incríveis mulheres bordadeiras – já estão fazendo sucesso mesmo antes da exposição. “Os modelos desenvolvidos recebem muitos elogios e estão sendo encomendados por turistas e apreciadores da cultura e artesanato brasileiro, nas sedes das duas cooperativas”, informa a coordenadora do projeto “Tecendo a Manhã”. Essa parceria com bordadeiras, e com os escultores e designers populares da região, começou em 2008, com o projeto “O Museu no Balanço das Águas” – este patrocinado pelo Banco do Nordeste dentro do chamado “Programa BNB de Cultura”. "Trabalhar com esse material humano, é incrivelmente bom. Alimenta a minha paixão pela memória afetiva”, atesta Amélia.

Segundo ela, o convívio com as artesãs da Ilha do Ferro e de Entremontes, é enriquecedor. “As conversas durante os nossos encontros, a comunicação entre os dois povoados, a textura leve e maravilhosa do tecido de linho, a delicadeza das linhas, a autoestima nas alturas dessas bravas mulheres, o maravilhoso gesto de ser através de um ofício primoroso, são elementos que me fazem crescer como designer e artista.”

Viagens ao Sertão

Com um pé em na Galeria Karandash – que originou o museu Coleção Karandash em Maceió, que por sua vez se estendeu até o Sertão por meio de um barco, batizado O Museu No Balanço das Águas – e outro pé na estrada, Maria Amélia e o maridão, Dalton Costa, viajam novamente na semana que vem, no sábado (27), até Pão de Açúcar e Piranhas, para os arremates dos bordados, dos livros artesanais e das próximas jornadas do barco-museu, este formidável instrumento dos projetos sertanejos do casal a navegar diligentemente pelas águas do rio São Francisco, levando arte e conhecimento a esses peculiares povoados ribeirinhos de forte tradição cultural.

“Durante o projeto, senti necessidade de incluir os bordados ‘boa noite’ e ‘redendê’ nos meus livros-objetos. Pontos que definem o bordado boa noite e o redendê emolduram fotos de paisagens, habitações e mãos femininas tecendo o bordado, fotos que retratam o convívio entre essas pessoas e a própria vida, impressas no linho, tomando a forma de paninhos de mesa, jogos de jantar e diversos outros utensílios", revela Maria Amélia. Sobre as fotos, Dalton diz que, ao tempo em que fotografa, também exercita o olhar. “Gosto de fotografar o incomum. Neste trabalho do projeto ‘Tecendo a Manhã’, procuro registrar as singelas fachadas, os encontros, os lugares, a luz.”