Nova gripe ainda não tem perfil de pandemias assassinas, sugere estudo

  • annaclaudia
  • 08/05/2009 10:29
  • Saúde
Pesquisadores do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos EUA, traçaram um perfil molecular dos vírus da gripe mais capazes de matar seres humanos ao longo do século passado -- e a boa notícia é que a nova forma do H1N1 aparentemente não se encaixa nesse perfil. De um total de 34 marcas genéticas que, em conjunto, caracterizam um vírus da gripe que avança rápido e mata muito, o H1N1 que está assustando o mundo hoje possui só 17.

A conclusão vem de um estudo publicado na revista científica "BMC Microbiology" no fim do mês passado e que agora foi ampliado com uma análise preliminar da nova cepa de gripe. "Essa falta de similaridade [com as variantes mais letais] não necessariamente significa que o atual vírus H1N1 não vai ser um grande problema. Mas, de fato, sugere que faltam a ele muitos dos atributos que tornaram os surtos anteriores realmente mortais", declarou Tom Slezak, um dos autores do estudo, em comunicado oficial.

O trabalho dos cientistas do Livermore é relativamente simples. Para começar, eles usaram como base as características dos vírus de gripe das pandemias de 1918, 1957 e 1968 (a primeira, mais conhecida como gripe espanhola, pode ter matado 50 milhões de pessoas ou mais no fim da Primeira Guerra Mundial). A ideia é que, para alcançar algo próximo do nível de perigo relacionado a essas pandemias, um vírus precisa, obviamente, ser capaz de matar com frequência mais ou menos alta e, além disso, ganhar especificidade em relação ao hospedeiro. No caso, isso significa ser capaz de se adaptar com precisão ao sistema de defesa do organismo humano.

Com base nessas características, presentes nas cepas pandêmicas do passado, os pesquisadores chegaram a um conjunto de 34 marcadores nas 11 proteínas que compõem os vírus, desde a "casca" que protege esses seres até as ferramentas que eles usam para invadir as células humanas e se multiplicar dentro delas. Esses marcadores correspondem a pequenas alterações nos aminoácidos, os "tijolos" moleculares que juntos formam as proteínas. Algumas dessas alterações podem ser trocas de um único aminoácido por outro (existem 20 tipos deles); outras equivalem a mudanças maiores nas proteínas, provavelmente ligadas à mistura de dois tipos de vírus no mesmo indivíduo infectado.

Na pesquisa, foi possível identificar uma espécie de gradação entre as formas humanas, suínas e aviárias do vírus da gripe. As cepas que circulam há tempos em seres humanos em geral têm alto nível de especificidade em relação ao hospedeiro, mas baixa capacidade de matar. As de origem suína ocupam posição intermediária, com "notas" altas no quesito letalidade e especificidade, mas sem a lista completa de 34 marcadores preocupantes; e as gripes aviárias matam mais do que todas, mas tendem a ser menos adaptadas a seres humanos.

Além desse dado geral, é importante o fato de os pesquisadores terem estimado o que seria preciso para uma forma de H1N1 adotar o pacote completo de características assassinas de larga escala. O perigo, avaliam, é a mistura de cepas humanas e suínas com cepas aviárias. Mais especificamente, eles supõem que seria necessário um "reassortment duplo" (ou seja, a "mestiçagem" dessas cepas em duas ocasiões, no corpo de indivíduos afetados por mais de um tipo de vírus) e mais uma ou duas mutações, trocando um aminoácido por outro, para produzir uma nova cepa letal e com facilidade de se espalhar pela população humana.