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O técnico Sebastião Lazaroni, perto de completar 70 anos, olha para o passado e se sente um vencedor. Nem mesmo a derrota da seleção brasileira para a Argentina, por 1 a 0, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 90, que nesta quarta-feira (24) completa 30 anos, serviu para modificar tal convicção.

Nem as críticas da imprensa, após ele assumir a seleção em 1989 e, mesmo conquistando a histórica Copa América daquele ano, ter comandado a seleção que foi eliminada no Mundial, na Itália, após implementar o esquema 3-5-2, com três zagueiros.

Antes de assumir a seleção, Lazaroni havia sido tricampeão carioca, dirigindo o Flamengo em 1986 e o Vasco, em 1987 e 1988, em uma época no qual o estadual era tão importante ou mais do que o Brasileiro.

Neste sentido, com fala mansa e passando franqueza, ele considera que muitos de seus conceitos buscaram dar maior dinamismo ao estilo de jogo da seleção. E, apesar da saída precoce e da performance tão criticada, não tem dúvida. "Passei mais de 10 anos pagando o preço por um rótulo". Confira.

R7 - Você conquistou o título da Copa América de 1989 já jogando no esquema 3-5-2. Na fase final da competição, deu certo e a seleção brasileira foi muito bem. Por que o mesmo esquema não deu certo na Copa de 1990?

Sebastião Lazaroni - É muito difícil fazer uma avaliação específica sobre isso. Mas vejo alguns aspectos. O primeiro foi a velha frase do futebol, a de que "quem não faz, leva", como ocorreu naquele jogo contra a Argentina (após o Brasil pressionar durante a maior parte do jogo, Maradona veio driblando e tocou para Caniggia, aos 35, que driblou Taffarel e fez o gol da vitória argentina). Depois, muitas alterações, alheias à minha vontade, foram feitas, porque o Romário e o Bebeto se contundiram, o Aldair voltou da final (da atual Champions) do Benfica também com uma contusão, e nem jogou na Copa, o Silas teve alguns problemas e, em função disso, tivemos de mudar o time que venceu a Copa América.

R7 - O meia Silas não foi tão aproveitado no Mundial, como havia sido na Copa América. A falta de um meia-armador em boa parte dos jogos pode ter pesado?

SL - Essa posição de meia-armador já estava começando a ficar carente no Brasil naquele tempo. Sempre tivemos camisas 10 específicos para armar, mas já não tínhamos tantos naquele tempo. Procurei estabelecer algumas características de armação nos que estavam atuando, com o Valdo tendo essa função e, em algumas ocasiões, o Alemão e o Dunga, que era nosso primeiro homem de meio. Além disso, avançávamos também pelas laterais, na busca de acionar os atacantes.

R7 - Naquele jogo contra a Argentina, o Brasil fazia sua melhor partida até tomar o gol. O que ocorreu naquele dia?

SL - O que houve foi coisa de futebol. Atacamos o tempo inteiro, perdemos gols e no fim tomamos um, após jogada individual (de Maradona). O Careca perdeu um logo aos dois minutos, depois tivemos várias chances. O Müller perdeu outro no final. E futebol é assim.

R7 - Você lembra com tristeza daquela Copa do Mundo e da derrota para a Argentina?

SL - Você acha que um cara que chega à seleção, conquista a Copa América, que não conquistávamos havia 40 anos e foi o primeiro título da seleção no Maracanã, e depois comanda a seleção em uma Copa do Mundo vai ter tristeza? Claro que, especificamente, fica a tristeza pela derrota naquele jogo, é natural. Mas de uma maneira geral, não.

R7 - O estilo de Dunga foi criticado em 1990, houve até aquela denominação de "Era Dunga", em referência ao que se via como defensivismo. Na Copa seguinte, ele foi capitão e tetracampeão. Como você vê essa situação?

SL - No Brasil, amam caracterizar negativamente, rotular. Não é o treinador, nem os jogadores. Vem da imprensa, tentando denegrir pela derrota. Mas o jogador tem uma arma: o próprio trabalho. Falei isso para o Dunga, quando o dirigi na Fiorentina, depois de 90 e antes de 1994. Disse a ele, após a Copa, que não o convoquei por qualquer outro motivo senão a qualidade e o trabalho que ele vinha apresentando. E continuei lhe dizendo que esse era o caminho, que ele deveria continuar acreditando em si e trabalhando no clube. E assim foi feito, com ele, anos depois, se consagrando campeão mundial. Agora é minha vez de rotular: Foi o tapa com luva de pelica do Dunga.

R7 - Você acredita que a derrota na Copa de 90 colaborou de alguma maneira para a conquista em 1994?

SL - Sim, ficou uma continuidade. 60% do time em 1994 esteve comigo na Copa América de 1989. Dei uma contribuição para que eles amadurecessem quatro ou cinco anos depois. Basta ver a idade de cada um no Mundial de 1994. Além disso, quando chegamos à seleção, não havia, como hoje, teipe, lista, fichas de jogadores. O calendário também era diferente para cada campeonato na Europa. Tivemos de estudar cada calendário, iniciair um procedimento para organizar a infraestrutura. O Américo Faria, que esteve conosco, ajudou a dar essa continuidade em 1994. Tudo isso fez parte de um processo que deixou tudo mastigado, ajudou na conquista de 1994, que tanto marcou. E fiquei muito feliz com o tetra, acima de tudo como brasileiro.

R7 - A união do grupo em 1994 foi uma das marcas da seleção. Em 1990 houve algumas divergências entre o elenco e a diretoria da CBF, em relação à premiação...

SL - Isso também fez parte daquele processo de aprendizado. A falta de acordo com os jogadores nos levou a criar uma cartilha, para não haver mais problemas. E isso também facilitou o trabalho na Copa do mundo seguinte.

R7 - Você ainda conquistou títulos fora do Brasil, após a Copa, como a Copa da Arábia Saudita, a Supercopa da China e a Copa da Liga Japonesa. No entanto, desde 2016, após voltar do Qatar, não tem mais atuado. Você ainda pretende atuar como treinador?

SL - Para isso, não depende de mim. O treinador sempre costuma ser a terceira palavra dentro de um clube de futebol, depois de dirigentes e coordenadores. Mas dependendo do projeto, aceito. Ainda me sinto com saúde e com paixão pelo futebol. No Brasil, após a Copa de 90, os clubes tinham receio em me contratar. Por causa dos rótulos. Fui rotulado injustamente. Fiquei mais de dez anos pagando pelo preço de um rótulo. Mas tudo bem. Sigo em frente.

R7 - Naquela época, você buscou um expediente do futebol europeu, hoje pouco usado, que eram os três zagueiros. Qual era o seu objetivo e quais de suas ideias ainda estão presentes?

SL - São momentos diferentes. Tive a ideia de formar uma última linha com três zagueiros, marcando por zona, porque os laterais costumavam subir muito e o time podia ficar mais vulnerável a contra-ataques. Com três zagueiros isso ficava mais difícil de acontecer. Hoje, as equipes europeias jogam com mais posse de bola. E com linhas altas, os setores mais próximos, fica mais difícil a utilização de três zagueiros, embora ainda existam equipes que joguem assim. No entanto, o futebol caminha deste jeito, como eu pensava: com intensidade, mantendo habilidade e rendimento na mesma proporção.

R7 - Há algum esquema mais usado hoje, na sua opinião?

SL - O futebol europeu tem tido versatilidade. Cabe ao técnico estudar as várias formas de atuar, de acordo com os jogadores. Pode hoje optar pelo 4-3-3; 3-5-2 ou todas as variações atuais. O Liverpool, por exemplo, tem um estilo próprio, joga com dois atacantes avançados nas pontas, o Salah e o Mané. O Firmino é quem costuma recuar pelo meio. Essa tática proporciona dificuldade para o adversário na marcação, quando a equipe recupera a bola e aciona esses atacantes, com passes longos.

R7 - Qual era o seu objetivo na seleção, ao implantar o 3-5-2? Priorizar a defesa em relação ao ataque?

SL - Nunca abri mão da essência do futebol brasileiro, de técnica, habilidade, criatividade, pesonalidade, capacidade de decisão. Quando assumimos, a seleção vinha de uma Copa de 1982 brilhante e técnica, de uma Copa de 1986 técnica, mesmo não tão brilhante, mas ambas sem o título. Em 1990 busquei dar continuidade a esses valores, com a habilidade associada a um rendimento e pragmatismo, aplicação maior na busca do resultado.

R7 - Você é um defensor do futebol de resultados em detrimento do chamado futebol-arte?

SL - Não. Cheguei a dizer um dia sobre a importância de se ganhar, nem que fosse com gol no último segundo, de mão. Mas foi apenas uma expressão. Não estava defendendo o jogo feio. A escola brasileira é proativa e tinha de continuar assim. O que eu queria era jogar, mas não abrir mão do resultado. O caminho é a habilidade do jogo, a criatividade, mas com a noção tática, aplicação, foco e pragmatismo.