ONG investiga uso de fósforo branco em ataque dos EUA no Afeganistão

  • gilcacinara
  • 10/05/2009 16:36
  • Brasil/Mundo

A principal ONG de direitos humanos do Afeganistão afirmou neste domingo que investiga o uso de fósforo branco --que causa queimaduras severas e problemas respiratórios-- pelos militares dos Estados Unidos em um ataque na Província de Farah, no Afeganistão, que deixou um número ainda indeterminado de vítimas civis. Os EUA negam a acusação, mas não rejeitam a hipótese de que a substância tenha sido usada pelos militantes do grupo islâmico radical Taleban.

Embora o uso do fósforo branco seja permitido durante batalhas em áreas não habitadas para criar nuvens de fumaça ou marcar alvos, seu uso é proibido em áreas povoadas ou em ataques diretos a pessoas por causar graves danos à saúde.

Muitas organizações consideram o uso do fósforo branco completamente vetado pela Convenção de Armas Químicas, que proíbe o uso de substâncias químicas tóxicas que possam causar morte ou incapacitação de pessoas e animais. As organizações criticam seu uso como crime de guerra.

Médicos afegãos afirmam estar preocupados com queimaduras "incomuns" que veem em afegãos feridos pelos ataques da força aérea dos EUA na batalha da segunda-feira passada (4).

Os EUA admitiram a morte de civis nos ataques, cujo alvo eram militantes do Taleban. Os investigadores americanos, contudo, não conseguiram determinar quantos civis foram mortos no ataque e afirmam que os talebans teriam forçado os civis a permanecer nas casas atacadas.

Nesta semana, a ONG Cruz Vermelha acusou os EUA de matar "dezenas" de civis nos ataques à região. O vice-governador da Província afegã afirma que o número de vítimas chega a 147, número que Washington nega como um "exagero".

Caso os números afegãos sejam confirmados, este será o mais violento ataque a civis afegãos desde o início da ofensiva liderada pelos americanos para derrubar o Taleban do governo local, em 2001.

As alegações de possível uso de fósforo branco pelos militares americanos ameaça agravar a tensão entre a população afegã, que critica duramente a ação das tropas americanas no país e a parcialidade do presidente afegão, Hamid Karzai, que seria excessivamente pró-Ocidente. O presidente chegou a pedir o fim dos bombardeios aéreos dos EUA.

Nader Nadery, comissário da Comissão Afegã Independente de Direitos Humanos, disse que uma investigação foi iniciada sobre o suo da substância química, mas que mais tempo será necessário antes de afirmar qualquer coisa.

"Nossas equipes se encontraram com pacientes", disse Nadery à agência Associated Press. "Eles estão investigando a causa dos ferimentos e o uso de fósforo branco".

Precedente

Os militares americanos já usaram fósforo branco na batalha de Fallujah, no Iraque, em novembro de 2004.

O coronel Greg Julian, porta-voz da tropas dos EUA no Afeganistão, afirmou que os soldados usam a substância para iluminar o céu, durante a noite, mas negou que tenham usado fósforo branco na batalha em Farah.

Julian ressaltou ainda que muitos soldados americanos dizem acreditar que Taleban usou fósforo branco ao menos quatro vezes nos últimos dois anos de confrontos no Afeganistão.

"Eu não sei se eles [militantes] tinham [a substância] lá ou não, mas não está fora de questão", disse. "Não houve fumaça ou iluminação usada em Farah. Eu não posso dizer se os insurgentes usaram, mas nós com certeza não usamos".

Julian ressalta ainda que os médicos de Farah, que trataram das dezenas de pessoas feridas, disseram aos investigadores americanos que os ferimentos --inclusive as queimaduras-- foram causados por granadas de mão e explosão de tanques de propano.

Testemunhos

O médico Mohammad Aref Jalali, chefe da unidade de queimaduras do Hospital Regional no oeste do Afeganistão, descreveu as queimaduras como incomuns.

"Eu acho que é o resultado de um produto químico usado em uma bomba, mas eu não tenho certeza de que tipo de substância estamos falando. Mas, se fosse de uma casa em chamas --por petróleo ou cilíndros de gás-- este tipo de queimadura pareceria diferente", afirmou.

Gul Ahmad Ayubi, vice-diretor do departamento de Saúde de Farah, afirmou que os hospitais locais receberam 14 pessoas com queimaduras deste tipo. "Já houve ataques aéreos em Farah antes. Nós tivemos feridos destas bartalhas, mas esta é a primeira vez que vemos este tipo de queimadura nos corpos. Eu não tenho certeza que tipo de bomba foi".

Investigadores da agência da ONU (Organização das Nações Unidas) de direitos humanos afirmaram ter viosto "extensivas" queimaduras nas vítimas e levantaram dúvidas sobre a causa dos ferimentos.

A ONU, segundo uma fonte anônima, ainda não chegou a uma conclusão sobre o uso de armas químicas ilegais.